terça-feira, 10 de julho de 2012

Só Hoje.

     Talvez possa começar hoje. Partir do caos e enveredar pela infinita panóplia de caminhos entrecruzados, sem nascente nem mar para desaguar. Procuro no dentro tudo o que não foi possível encontrar fora. Esquecendo a lei dos espelhos que rege a relação entre os dois...
     A folha branca mostra-me ininterruptamente o quase e o aquém. Insuportavelmente incapaz de traduzir o além, apesar de tão real, tão visceral, tão presente. É sangue sem cor. É língua sem papilas gustativas. É cheiro de memórias que não se recordam, vazias e ausentes.
    A palavra espartilha o pensamento, enche-o de dor. Se tivesse rosto, seria um esgar inoportuno. Hoje. Hoje que se sentam a uma distância respeitosa. Hoje, presente parado, na repetição incessante do ciclo dos dias.
    A palavra não traduz o que se pensa e o que se sente. Ainda. Hoje. Só hoje.

Foto de Elizaveta Porodina

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um Tempo sem Tempo

" As coisas pioram, o mundo muda. No meu sonho nada evolui. Eu estou sempre como agora. Tu não sais nunca da minha frente. As pessoas não crescem. As árvores não morrem. Se a vida pudesse ser parada, eu parava-a aqui."
                                                               Miguel Esteves Cardoso, in As Minhas Aventuras na República Portuguesa
A Persistência da Memória, Salvador Dali, 1931