segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Da Transparência - parte II

Ao desviar o olhar escuro para a direita, pode perceber a janela por detrás do estores corridos, larga mas discreta. O tempo começa a perder-se por entre o tamborilar compassado dos dedos na superfície da mesa. Ritmados, mas expectantes. Os olhos perseguem as arestas do tecto branco, tão branco quanto o tiquetaquear vazio do relógio que não existe, mas que imagina. Lentamente soergue-se na cadeira, humedece os lábios, preparando-os para uma qualquer adivinhada e pressuposta troca verbal que se aproxima. Endireita a coluna dorida... não se sabe onde mais dói - se em baixo, se mais em cima, paralelamente ao peito ou na base da cabeça. Este movimento ténue foi o suficiente para aliviar a tensão  do corpo e deixar descair uma madeixa do cabelo escuro que se aventurou sobre o ombro, como caminhante que chega ao topo da montanha e o ultrapassa, ou como quem lê um livro e chega, mais uma vez ao final de uma página. Para começar outra.
Numa qualquer outra ocasião, esta ousadia capilar seria rapidamente corrigida por um gesto de recolhimento da madeixa, um resguardar-se da espontaneidade, uma negação do corpo que não se sente corpo. Contudo, por ora ela adia esse gesto que sabe inevitável e permite que as ondas do cabelo rocem o seu ombro, deslizem pelo decote discreto e lhe cubram as formas mal definidas pela largura da camisola que se pretende, mesmo sem o querer, ocultante.
Luísa é na sua totalidade, camuflagem, largura de roupa, um entediante e vicioso jogar às escondidas.
O tempo passa (ou é Luísa que passa, sem se ver?). O rosto inalterado, apenas a madeixa que esconde mais e mais. E um pouco mais ainda. Sente-se pequena e um ponto final num livro enciclopédico. Uma vírgula na leitura de criança que não sabe o que é a pontuação, nem para que serve. A espera, essa, enorme (num momento cabem anos de pensamento, o relógio parado).
Luísa volta a deslizar lentamente o olhar, agora um pouco mais translúcido, como que adivinhando o que pretende confirmar, para a sua direita, na direcção da já constatada janela. Vê agora que afinal é um espelho - ela, a janela transparente, mas oculta.
Atrás de si, uma porta que se abre. O cabelo todo à sua frente.

"Hidden Window", Hantta (2005)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Clavículas

Mantenho o meu horizonte ao nível da clavícula. O som passeia por entre os cabelos e o corpo ondula com os sustenidos e os bemóis. É nesta articulada marioneta que me rodeia a base do pescoço que tudo assenta - uma cabeça entre dois ombros, sustentados por dois flexíveis ossos, com tanto de fundamental como de frágil. As clavículas sustentam o peso do mundo, daquele que corre na minha cabeça. Horizonte e raiz, não sabe bem onde pertence, se à terra se ao céu... ou se na ponte entre os dois.
É mesmo isso - é uma ponte. Consigo pensar nesta parte do meu corpo como uma ponte levadiça, esta, que me leva de um ombro ao outro. Se fossem puxadas por fios invisíveis produziriam o mesmo tipo de movimento, descoordenado mas fluído.
Dançantes continuam, neste ritmo descompassado. Sei-o de cor. No entanto, sempre ignorando a mestre cabeça, aquela que coroa o corpo mas a quem teimo recusar a supremacia das vontades.
Por ora, prefiro ficar aqui mesmo ao nível das clavículas. Esta linha do horizonte fica ligeiramente mais perto do coração.

                                             (autor desconhecido)

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

setembro


Setembro chega com passos de raposa. Entra pelo verão adentro, lembrando que este termina. Um dia, como tudo. Os dias que faltam são muitos, o tempo é distante, o amanhã demora. As horas, os minutos, os segundos, custam a passar. Neles mora a eternidade de um suspiro secular.
No entanto, ainda que demore, ainda que custe, ainda que doa, o dia chega sempre e, num ápice, ou numa quase irrealidade, chegou-se aqui, a este lugar e este momento. Como aproveitá-lo, ninguém sabe... é o agarrar do momento que enfim chegou, mas num repente, já partiu.
Busco algo de perene no fluir deste rio, em que a água que passa nunca é a mesma (já dizia o filósofo), E é difícil, pois o que permanece são as pedras, e o som da água, e os teus soluços por não poderes ser e parar. Queres muito que espere por ti, mas sabes que não posso – sou como o Verão que se deixa ficar em setembro mas sabe que tem de partir, em ciclo redondo.
Pedes-me para ficar e não ceder à transformação. Como não, se a sou eu própria?... se me vejo ao espelho e fluo como o rio, num incessante renovar de sentires. Setembro leva-me, não quero esperar mais.

        
                                                                                Summer Dreams IV, Christine Alfery

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Tanto

Era tanta coisa para dizer, e tão importante, que se esqueceu de tudo e ficou sem nada para contar. Olhou apenas, silenciosamente.


sábado, 18 de agosto de 2012

Da Transparência - parte I

Era uma vez uma rapariga que era tão transparente, tão transparente, que naquele dia de finalmente Verão, quando aproximou os passos cautelosos e lanzudos do imenso areal, ao olhar para as próprias pernas, brancas, tão brancas de escondidas, conseguiu vislumbrar o mar, o sol, a areia e ainda a gota de céu e de horizonte, através delas. Estas eram as pernas da praia - pensou - desaparecendo na paisagem.


quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Palavras emprestadas...


" Eu não sou eu nem sou o outro,
   Sou qualquer coisa de intermédio:
                    Pilar  da ponte de tédio
                    Que vai de mim para o outro."

                                     (Mário de Sá Carneiro; Lisboa, fevereiro de 1914)

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

(De)Limitações

Valquíria olhava pela janela e deixava o seu braço gigante chegar ao longínquo ponto onde o olhar alcançava. Lá longe no horizonte, nessa linha que só é fim se assim se quiser. O horizonte, a zona de ninguém azul violácea, - pensava – podia ser o que de mais perto se poderia transformar na experiência terrena de infinito. Por isso gostava de fitar, durante horas seguidas, essa linha que não era senão subjectividade e mudava de sítio consoante o lugar dos olhos.
Onde o olhar alcançava, os braços seguiam-no. As pernas. O cabelo, e até talvez o beijo... O braço esticava para além da carne, testando a elasticidade dos tecidos. Testando a vontade, o empenho e a persistência. A crença, até. Os limites, sempre os limites. A palavra proibida no vocabulário imenso de Valquíria, na sua imensa colecção envaidecida de palavras.
Valquíria não tinha limites. Ou melhor, desejava insistentemente não os ter. Para a tudo chegar, tudo conseguir, tudo devorar. Na sua sede de conquistar sempre o que estivesse mais além. Sempre um pouco mais além. Na ânsia de esgotar tudo o que houvesse para fazer, tudo o que houvesse para inventar, no espaço limitado de tempo que lhe era oferecido para a viagem presente da sua existência, essa sim, finita até mais não, gerando uma dor inqualificável que Valquíria claramente não conseguia suportar.
Era assim que diariamente, em cada momento, em cada minuto, em cada segundo, esticava os braços, fazia crescer os longos cabelos, alongava a tez, sempre no sentido de chegar ao lugar que não existia ainda a não ser no pensamento...
Os dias sucederam-se, um após o outro, um nascendo onde o outro morria, e assim sucessivamente, na única forma irónica e quase desafiante que o relógio tinha de mostrar à aparentemente serena rapariga a sua finitude. Ponteiros insolentes esses que insistiam em oferecer um tempo e um prazo a quem tentava a todo o custo sair dele! E assim continuava a esticar-se e a prolongar cabeça, tronco e membros, todos os dias um pouco mais.
Foi neste momento em que se alongava para além da janela que se apercebeu que, ao tocar objectos, pessoas e horizontes, os transportava também com ela... os brincos da senhora idosa que passava, o piano do vizinho do lado, as gargalhadas da criança na escola do quarteirão seguinte, os cabelos da rapariga de corpo escultural que passava na rua. Até a esperança carregada no ventre da mulher que conhecera essa tarde. A família também, essa sempre presente, cada qual dependurado um em cada cabelo de Valquíria, mais uma vez testando os tecidos capilares e a sua resistência. Os amigos de quem não era amiga. Os conhecidos que mal conhecia.
Valquíria não transportava. Carregava. Na realidade, sobrecarregava.
Nesse dia em que, uma vez mais, se esticava para o exterior na ânsia de tudo abarcar, dava por si como que a inclinar-se em ângulo assustadoramente vazio de sentido. Um plano inclinado sem rede e sem lugar de queda. O horizonte, esse, enegrecia-se em invisibilidade nua, viajava mais longe, onde os olhos não pousavam, tantos obstáculos se iam erguendo no caminho. Entre os dedos e as palmas das mãos, entre o ombro e o cotovelo, entre a íris e as pestanas. As pessoas, as coisas, os sentires,os estares, tudo aquilo a que se oferecia sem colocar qualquer espécie de limite, pendia e baloiçava dolorosa e vagarosamente no espaço periclitante que mediava a raíz e a ponta do cabelo, a jugular e o peito cavalgante, agora cada vez mais pesado e arrastado.
Valquíria sabe que tem de cortar as amarras, mas perde-se nos motivos, nas redes e nos ciclos viciosos. Viciosos e viciantes. Numa dança ébria, que arrasta e devora, desenhando-se na imagem de um vestido que se arrasta em pó de estrada granulosa.
Hoje, mais uma vez se estica, se arrasta para fora da janela. Hoje, mais uma vez o ciclo volta a acontecer, em vida repetida que já não se repete porque queira ou porque goza de algum prazer sórdido, mas num eterno voltar amarelecido e sem brilho.
Hoje Valquíria sabe que este movimento já não é voluntário. As ligações tornam-se amarras. Valquíria, que procurou a liberdade para além do corpo, encontra-se enredada nos seus próprios cabelos, as amarras que se tornaram carne e que sente que é preciso rasgar.
Valquíria sabe que hoje vai ser quebrar ou deixar rasgar.
                                                                          Autor desconhecido, in baledasasas.blogspot.com